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Lidador


3 replies to this topic

#1 sodokan_mares

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Posted 26 May 2005 - 01:43 PM

O Cemitério das Âncoras e o naufrágio do "Lidador" estão a ser detalhadamente estudados desde 1995, mas, este ano, foi considerado que já estavam reunidas as condições para a sua abertura ao turismo arquelógico subaquático. Nesse sentido, estão a decorrer os trabalhos de marcação de trajectos subaquáticos.

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Verificaram que, entre outras raridades, foram registados vários peixes-porco em nidificação no meio destes destroços.
"Há três espécies de homens... Os vivos, os mortos e os que andam no mar." Platão, 427-347 ac

#2 Alexandre

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Posted 03 July 2005 - 11:19 PM

Nos finais do século XIX, a pressão populacional nos Açores e a expansão económica do Brasil levaram à emigração de muitos açorianos para este país da América do Sul. Esta movimentação humana não era, contudo, um fenómeno novo. Com efeito, desde 1617 que a colonização do estado autónomo do Maranhão, Pará e Ceará se tinha iniciado com a ida de centenas de casais açorianos, numa fuga à fome e à miséria.

Mais tarde, é a própria Coroa que promove, a partir de 1670, a emigração de açorianos para o sul do Brasil, nomeadamente para Santa Catarina, Nossa Senhora do Desterro, Porto Alegre e São Pedro do Rio Grande. Esta emigração, mais do que movida por questões humanitárias, era fundamentalmente ditada pela necessidade que Portugal sentia em ocupar efectivamente um território cobiçado pelas grandes potências europeias da altura, entre as quais se incluíam a Espanha, a Holanda e a França.

Esta emigração, caracterizada pela procura de zonas insulares e lacustres e pela implantação de zonas urbanas viradas para o interior, prolongou-se até ao século XIX e exigiu, naturalmente, um esforço por parte dos armadores marítimos de maneira a que se pudessem organizar carreiras regulares entre o Brasil e os Açores.

As embarcações envolvidas no transporte de bens e pessoas entre o Brasil e a Europa evoluíam gradualmente, num movimento de modernização de que era exemplo prático o navio Lidador - uma embarcação típica da época de transição entre os navios à vela e os navios a vapor que faziam a carreira transatlântica na segunda metade do século XIX.


O Lidador foi construído em Londres, em 1873, nos estaleiros navais Walker. O vapor de casco de ferro media 78.67 metros de comprimento, tinha 9.44 metros de boca e 6.85 metros de calado. Possuía quatro compartimentos internos, dois conveses e tinha 1208 toneladas registadas de arqueação. O seu único hélice era propulsionado por um motor a vapor de 140 cavalos de potência construído por J. Penn & Son, de Londres. Como muitos outros navios daquele período, o Lidador tinha também dois mastros que arvoravam pano redondo.

Depois da sua construção, o naviofoi inspeccionado para fins de obtenção do seguro marítimo, em Cardiff, País de Gales, onde foram também testadas as correntes e âncoras. O Lidador entrou então ao serviço da Empresa Transatlântica de Navegação, ficando registado no porto do Rio de Janeiro.

Nos finais de Janeiro de 1878, o Lidador ancorou ao largo da cidade de Angra do Heroísmo, ilha Terceira, Açores, para embarcar passageiros e carga com destino ao Brasil. Após o embarque dos emigrantes e dos passageiros faialenses que tinham o Brasil como seu destino final, o vapor rumou à Terceira naquela que seria a sua última escala. Ao chegar à vista da cidade de Angra, o navio ancorou por fora das fortalezas - ou seja, para o exterior do alinhamento formado pela Ponta de Santo António, no Monte Brasil, e pelo Forte de São Sebastião.

No porto encontravam-se já outros três barcos, todos à vela e todas de madeira: o navio Angrense, o patacho inglês Jane Wheaton e o lugre, também inglês, Zebrina. As lanchas do porto imediatamente se dirigiram ao Lidador e depressa se iniciou o embarque dos emigrantes e das respectivas bagagens. Ao anoitecer do dia 6 de Fevereiro, com as operações de embarque ainda a metade realizadas, o vento principiou a soprar com mais violência e a rondar para o quadrante sul. Pouco mais tarde, o vento soprava de sueste e tornava-se no tão temido vento carpinteiro.

Na ânsia de se escapar à tempestade, a tripulação do Lidador deixa descair a âncora e não a consegue, atempadamente, recolher. Devido a este percalço, o navio gira em torno da amarração e acaba por embater, a 7 de Fevereiro, no recife submerso que se prolonga por mais de duzentos metros pela ponta do Forte de São Sebastião afora - a restinga, responsável por inúmeras perdas de embarcações no passado, desfere um autêntico golpe fatal ao navio: a colisão provoca um rombo no casco e a submersão da máquina pela água do mar, o que apaga as caldeiras explodindo, quase de imediato, a caldeira devido à sobrepressão do vapor.

O navio fica à deriva e à mercê do vento que o impele, inexoravelmente, em direcção a terra, fazendo-o colidir com o Jane Wheaton e quebrando-lhe o mastro do gurupés. Finalmente, acaba por encalhar paralelamente ao cais da Figueirinha, a não mais de cinquenta metros de distância da costa soçobrando a cerca de 9 metros de profundidade.

Os náufragos, em pânico, são evacuados pelos botes dos navios ancorados e pela lancha da cidade, não sem experimentarem alguma dificuldade devido à agitação do mar no interior da Baía. O mesmo não se passou, contudo, com a carga e as bagagens dos passageiros e tripulantes. As divergências havidas entre o representante da agência da Empresa Transatlântica de Navegação e o Consulado Brasileiro deram azo a que nada se fizesse acerca do material que ainda se encontrava por salvar e, assim, tudo o mar levou.

A situação dos náufragos não era, também, a melhor. O prelado da diocese abriu uma subscrição para ajudar as vítimas e o Visconde de Bettencourt acolheu na sua casa oito homens e dezanove mulheres. Tal levou a que, mais uma vez, a política viesse a terreiro. De facto, a guarida dada pelo Visconde a estes náufragos caiu bem junto da população o que levou o Barão do Ramalho - governador civil de Angra - a tomar-se de brios para com o Visconde e o seu partido progressista e nada fazer em prol dos náufragos.

Afectado, ficou também o comandante. Diz uma fonte da época que, em 1862, o capitão de marinha mercante Augusto Borges Cabral, natural de Santa Maria, residiu por alguns meses entre nós, enquanto aqui se construía a escuna Ema, que ele iria comandar. Augusto Borges Cabral, que vimos em Angra sucumbido em 6 de Janeiro de 1876 após o naufrágio na baia daquela cidade do vapor Lidador de que era comandante, e que meses depois fomos encontrar na residência do Pe João Crisóstomo, vigário da Agualva, pela festa das pêras, tirando acordes de uma viola de arame, e queixando-se de lesão cardíaca, faleceu em Ponta Delgada em Setembro de 1882; e era homem algo ilustrado, e de caracter muito jovial.

Actualmente o Lidador encontra-se esmagado e fragmentado, com os seus bordos quebrados e a sua popa torcida para estibordo.

O motor e o hélice desapareceram, tendo sido muito provavelmente salvados, mas o veio de transmissão e o seu local de passagem ainda são visíveis por entre as pedras de lastro, na parte posterior do navio. Mais à frente, um aglomerado de destroços, formado por tubos e placas encurvadas de ferro, assinala a presença das caldeiras.

O Lidador carregava uma enorme quantidade de lastro de pedra no seu porão de vante, uma característica algo surpreendente para um navio daquele tipo e relativamente moderno (um lastro de ferro, cimento, ou chumbo era mais compacto e libertava mais espaço nos porões do navio).

Os destroços do Lidador sofreram uma análise preliminar durante o projecto conjunto Açores - INA de prospecção da baía de Angra, em 1996, e o naufrágio foi ainda documentado em 1997, através da captação de imagens vídeo e da obtenção de uma imagem de sonar de varrimento lateral, gerada pela Marine Sonics, Inc.

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#3 Alexandre

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Posted 15 February 2006 - 05:49 PM

A popa do Lidador.

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#4 Alexandre

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Posted 15 February 2006 - 05:54 PM

O plano do naufrágio.

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